Tecnologia

O excitante futuro dos veículos autónomos deve ser entediante

E isso é o melhor que podemos pedir

Elon Musk (um dos maiores exagerados de Silicon Valley) partilhou um vídeo conceito onde expõe a sua visão para o futuro da transportação. Nele vê-se uma enorme rede de túneis ligada à superfície por elevadores onde condutores colocam os seus carros e estes são transportados por uns suportes autónomos pelo túnel fora. Mas a versão mais eficiente do futuro da transportação não podia ser mais diferente.

Todos os dias são nos apresentadas novidades e previsões de um futuro de transportação autónomo. Todos os dias existe uma nova ou velha empresa a clamar a sua posição e diferenciação na corrida à autonomia. E em quase todas essas vozes existe um ponto em comum: um desvio daquele que é o mais eficiente futuro da transportação. Isto pela simples razão de estas empresas procurarem lucros e, como tal, distorcem a realidade para melhor satisfazer o seu modelo de negócios. Modelo de negócios esse que raramente corresponde à melhor opção que beneficia toda a sociedade. Por enquanto, esta corrida à automação ainda é apenas isso, uma corrida. Corrida que, independentemente do que a Waymo, BMW, UBER ou o Elon Musk possam dizer, ainda está a dar os primeiros passos, estando a meta muito longe.

Estas empresas funcionam à base de base de lucros e investimento e uma maneira de os aumentar é afirmando o incrível futuro de transportação que estas empresas vão construir. Por mais exagerada e adiantada que seja a previsão, ela funciona e atrai dinheiro. A Tesla atingiu um valor de mercado maior que o da Ford e da GM apesar de ter vendido em todo o ano 2016 menos carros do que Ford no mês de Março. Ainda mais, a Tesla nunca gerou lucros em toda a sua história e tem tido enormes problemas nas suas linhas de montagem assim como com os seus trabalhadores. Então como é possível ter um valor maior que a Ford tendo tantos problemas e tão poucos resultados? Bom, como o seu próprio CEO, Elon Musk, diz: especulação. Ao afirmar este laudáveis objetivos de eliminar o trânsito do mundo com novas exóticas tecnologias, atrai o interesse de muitos investidores. E o respetivo dinheiro. Mas o problema é que até agora nenhuma destas empresas gerou uma verdadeiramente realista previsão e nenhuma está minimamente próxima de atingir os desproporcionados objetivos por elas propostos.

Personagens como o Elon Musk constantemente afirmam que o derradeiro carro autónomo está ao virar da esquina, quase cá, pronto para desregular todo o mercado mundial. Mas a realidade é muito mais chata e morosa que isso e a verdade é que estes carros ainda vão demorar umas décadas a serem uma permanência nas nossas estradas. Mas mesmo quando este futuro chegar, não vai ser como estas empresas o fazem parecer.

O melhor e mais eficiente futuro da transportação irá residir sobre os ombros de um já existente e velho paradigma: a transportação pública. O tão louvado inovador futuro dos veículos autónomos terá a sua melhor utilização num autónomo autocarro.

Os problemas atuais

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A esmagadora maioria das cidades europeias são densas e concentradas, com pouco espaço horizontal, sendo construídas verticalmente (sem excessos de arranha céus, impedidos por legislações locais para não destoar com a arquitetura histórica). Ao invés dos EUA onde tudo é construído na horizontal com enormes parques de estacionamento construídos ao lado de enormes horizontais centros comerciais, a Europa, o velho continente, é construído sobre fundações de centenas de anos, com estradas mais estreitas, construções mais verticais e integradas, sem excessos de espaço. Os nossos edifícios não só integram estacionamento, utilidades e residências no mesmo espaço como também integram zonas residências com comerciais.

Isto faz com que existam limites nas nossas cidades para como os veículos circulem. Temos um limite físico de faixas nas estradas e, consequentemente, um limite físico de carros que nelas cabem. Esta pequena enorme limitação automaticamente elimina a opção de cada casa ou família ter um ou dois carros pois simplesmente não temos espaço para eles todos. As propostas soluções de melhorar as estradas e construir mais faixas simplesmente iriam aumentar o problema. Construir mais faixas para aguentar mais carros não reduz o trânsito, muito pelo contrário. Simples lógica dita que quantos mais carros tivermos em mais faixas, mais trânsito teremos. Aumentamos a quantidade e não a qualidade.

Continuando, quando nós vemos nos nossos centros citadinos trânsito, ele não existe porque a organização e sinalização das estradas é má ou porque existem poucas faixas. Ele não existe porque um mau condutor atrasou o trânsito e também não existe porque as pessoas param para ver os acidentes. O trânsito existe porque o ser humano tem falhas que, consequentemente, tornam a condução propícia a erros. Isto advém da nossa natureza como seres humanos. É nos fácil apontar o dedo a outros e automaticamente culpabilizar todos os outros de maus condutores sem nunca pararmos para observarmos as falhas no nosso comportamento. A verdade é que a partir do momento em que seres humanos estão ao comando dos veículos, o trânsito existe porque nós o criamos. Todos nós, sem exceção.

Um exemplo: investigadores japoneses realizaram uma experiência onde criaram uma estrada circular com 230 metros de diâmetro. Nela colocaram 22 veículos, conduzidos por humanos, igualmente espaçados com a instrução de todos conduzirem à mesma velocidade de 30km/h. Pouco depois já havia trânsito. Trânsito numa estrada circular fechada ao ambiente exterior, sem perturbações ou acidentes, onde todos os carros estão inicialmente espaçados e movem-se à mesma velocidade. Porquê? Pela simples razão de quem os conduzia ser propício a falhar.

Uma outra enorme falha na atual eficiência da transportação é a taxa de utilização efetiva dos nossos carros. Reparemos em quanto tempo realmente estamos a usar os nossos carros: estamos a faze-lo, em média, apenas 2 vezes por dia, estando o carro parado todo o restante tempo. Isso é um simplesmente péssimo e absurdamente ineficiente uso de uma máquina. Estamos a comprar carros para os usarmos 30 a 60 minutos por dia, estando parados nas restantes 23 horas do dia. Não só temos que construir enormes infraestruturas para os acomodar e estacionar como perdemos tempo (útil) a procurar lugares disponíveis nesses parques de estacionamento.

Para finalizar os problemas da posse de carros individuais, surge o mais óbvio: os carros individuais são, muitas vezes, usados por apenas um ou dois indivíduos. Segundo dados de 2010, existem 548 veículos de passageiros por cada 1000 cidadãos portugueses. O que quer dizer que um carro, em média, tem no máximo 2 pessoas dentro. Carro esse que na maior parte das vezes tem 5 lugares. Novamente, a ineficiência do nosso atual paradigma de transportação torna-se evidente.

Acumulando todos estes problemas, temos uma muito problemática situação: pequenas estradas, cheias de carros, vazios de pessoas, que vão para o mesmo sítio a conduzirem mal para pararem todos o carro no mesmo sítio. Isto para não falar dos enormes problemas ambientais que advêm da construção e manutenção de um carro.

E é assim que nasce o trânsito. Estamos a ser o menos eficientes que podemos ser.

Os problemas das soluções de Silicon Valley

Voltando ao ponto de abertura deste artigo: o vídeo do Elon Musk onde carros são transportados em caixas autonomamente por uma rede de túneis subterrâneos. Apesar de neste cenário o fator do erro humano não estar presente, todos os outros estão, com mais uns novos.

Primeiro, tendo em conta a simples logística de qualquer cidade em qualquer país no planeta, não podemos sobriamente andar a cavar túneis por todo o lado, sem mais nem menos. Simplesmente não é exequível tendo em conta todas as infraestruturas presentes numa cidade moderna, já enterradas no chão. Como tal, a alternativa do túnel (que é bastante cara) é utilizada apenas em excecionais casos onde não existem alternativas acima da superfície.

Logo de seguida encontra-se outro problema: o ainda presente carro individual. Independentemente de o carro individual ser conduzido por um ser humano ou um algoritmo, as suas inerentes falhas ainda persistem. Esta “solução” ainda propõe todo um carro para uma ou duas pessoas. A questão da utilização de vida útil também prevalece, pois, os carros continuam parados em parques de estacionamento a esmagadora maioria do tempo.

Isto para não falar de que, apesar de os carros autónomos terem uma condução mais matemática, a sua pegada física ainda permanece nas estradas. Não só ocupam a sua quota parte de espaço na estrada, como ainda requerem uma distância de segurança entre o anterior e próximo carro. Espaço citadino esse que facilmente é preenchido com um ou dois passageiros por carro. Voltamos novamente ao problema das nossas cidades.

A melhor solução, para a sociedade

Mas a solução é simples. E já existe. Chama-se transportação pública. O perfeito utópico futuro da transportação reside sobre os ombros do velho autocarro, agora autónomo (e do metro, caso a cidade seja grande o suficiente).

Consideremos todos os problemas que os autocarros autónomos resolvem:

  • Tempo de utilização útil reverso: um autocarro autónomo consegue estar em circulação todo o dia, parando apenas para abastecimento e manutenção;
  • Utilização por passageiro: num autocarro podem caber confortavelmente cerca de 40 pessoas, uma multiplamente mais eficaz utilização de espaço por veículo;
  • Ocupação de espaço na estrada: com maioritariamente autocarros autónomos nas estradas, o trânsito baixa drasticamente pois eles ocupam muito menos espaço que os veículos singulares, já para não falar que o seu funcionamento autónomo lhes confere uma muito mais eficaz condução;
  • Como autocarros autónomos continuam a usar as já existentes estradas, o investimento em infraestruturas mantem-se, sendo a construção de túneis uma questão periférica;

Os autocarros autónomos serão a principal solução, mas não a única. Para cidades de grande dimensão, o metro ainda será muito importante e necessário. No entanto, com ou sem automação, o funcionamento do metro irá se manter igual, no que toca ao ponto de vista do passageiro. Os táxis, autónomos ou não, ainda terão o seu lugar para satisfazer esporádicas e irregulares viagens não facilmente cobertas pelos transportes públicos.

Mas os veículos singulares não irão desaparecer. Simplesmente vão ser usados de maneira diferente. Esmagadoramente, iremos deixar de ser donos dos nossos carros, ou de qualquer carro. Iremos usar maioritariamente a transportação pública, mas um outro meio de transportação, já hoje presente, irá continuar: o aluguer de carros. O carro singular vai passar a pertencer a empresas que os alugam para aquelas irregulares viagens, planeadas em antemão. Aliás, esta vertente de negócio já está a ser incorporada na estrutura de muitas empresas fabricantes de automóveis.

Mas os ganhos com a autonomia não se ficam pelo trânsito. A enorme quantidade de dados que estes veículos vão gerar vai nos permitir descobrir como as massas populacionais se deslocam, com uma resolução ao minuto. Estes veículos vão estar sempre ligados à internet e isso vai nos permitir, através dos inúmeros sensores que eles contêm, saber onde as pessoas iniciam a sua viajem, onde a finalizam, quando a começam e acabam e, com todos estes dados, melhor calcular a mais eficiente maneira de nos transportar. Graças a toda esta nova, enorme quantidade de dados vamos poder compreender como as nossas cidades funcionam, melhor do que nunca, com uma precisão nunca antes vista. A manutenção e construção de estradas vai passar a ser principalmente influenciada pelos dados gerados por estes veículos e, principalmente, pelos passageiros que os movimentam.

Com todas estas alterações, no final de contas, as estradas vão ter menos veículos, autónomos ou não. Isto vai-se traduzir numa reconquista da cidade pelos peões, onde estradas serão reconvertidas em espaços pedonais. Existirão mais áreas verdes, abertas ao ambiente. A nossa qualidade de vida irá aumentar, não só por andarmos ligeiramente mais, mas também porque com menos carros, existirá menos poluição. Com este aumento do tráfego pedonal, lojas de rua irão também experienciar um maior volume de negócios.

E por fim, a última, e talvez mais importante vantagem da transportação publica: o combate ao isolacionismo. Cada vez mais nos isolamos nas nossas bolhas de atenção, lendo apenas as notícias que queremos, vendo apenas aquilo que queremos ver e ouvindo apenas aquilo que queremos ouvir. Esta atitude de afastamento daquilo que nos possa ameaçar torna-nos mais vulneráveis à inevitável mudança. Faz de nós mais sedentários e monótonos, incapazes de evoluirmos. Com um novo foco na transportação pública iremos ser novamente forçados a viver em sociedade, um sentimento que temos vindo a perder. Iremos todos usar o mesmo autocarro e seguir a mesma condição. Aliás, um importante indicador de igualdade de uma sociedade irá ser este mesmo: o número de classes sociais diferentes presentes nos autocarros, utilizando os mesmos serviços.